Atos 17:24-25 · Série “Igreja é gente”, 3 de 7
Deus não precisa de nada: ele nos dá a respiração
Em Atenas, cidade cheia de templos e altares, Paulo apresentou o Deus que dá a todos vida, respiração e todas as coisas.
“O Deus que fez o mundo, e todas as coisas que nele há; este, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos. E nem também é servido por mãos humanas; como que necessitasse de alguma coisa; porque ele é que dá a todos vida, respiração, e todas as coisas;”
Respire fundo agora. Esse ar que entrou e saiu, você não pagou por ele, não pediu, não precisou merecer. Ele simplesmente veio. E quase ninguém pensa nisso durante o dia.
Muitas vezes a nossa relação com Deus funciona ao contrário: achamos que precisamos dar algo a ele para que ele se interesse por nós. Paulo enfrentou essa ideia numa das cidades mais cultas do mundo antigo, e a resposta dele começa justamente pela respiração.
O contexto
Paulo estava em Atenas esperando os companheiros de viagem. Andando pela cidade, ficou incomodado ao ver tantos ídolos. Atenas era famosa pela filosofia e pela arte, e também por seus santuários, estátuas e altares espalhados por toda parte.
Ele conversava na sinagoga com os judeus e, todos os dias, na praça do mercado, com quem aparecesse. Alguns filósofos epicureus e estoicos começaram a discutir com ele e o levaram ao Areópago, um lugar de debate e decisão da cidade, para ouvir aquela “doutrina nova”.
Paulo não começou atacando ninguém. Começou reconhecendo a busca deles:
Porque enquanto eu passava pela cidade e via vossos santuários, achei também um altar, em que estava escrito: AO DEUS DESCONHECIDO. Este a quem vós prestais devoção sem conhecer, este é o que eu vos anuncio;
O que o texto diz
Paulo apresentou aos atenienses um Deus que eles não conseguiam encaixar nas suas categorias.
Primeiro, um Deus que fez o mundo e tudo o que nele há. Não um deus da cidade, do mar ou da colheita, mas o Senhor do céu e da terra. Um Deus desse tamanho não cabe numa construção, por mais bonita que seja. Por isso ele não habita em templos feitos por mãos.
Segundo, um Deus que não é servido por mãos humanas, como se precisasse de alguma coisa. Em Atenas, cuidava-se dos deuses com ofertas, alimentos, perfumes, presentes. A lógica era de troca: eu sirvo, eu dou, e o deus me favorece. Paulo inverteu a conta.
Terceiro, e mais importante: é ele quem dá a todos vida, respiração e todas as coisas. O movimento não começa em nós e vai para Deus. Começa em Deus e chega até nós. Antes de qualquer oferta, já recebemos tudo.
E Paulo continuou dizendo que Deus fez todos os povos para que o buscassem, e que ele não está longe de cada um de nós. Chegou a citar um poeta grego que os ouvintes conheciam:
Porque nele vivemos, e nos movemos, e somos; assim como também alguns de vossos poetas disseram; porque também nós somos descendência dele.
Depois, falou de arrependimento, do dia em que Deus julgará o mundo com justiça e de Jesus, a quem Deus ressuscitou dos mortos. Alguns zombaram, outros quiseram ouvir mais, e alguns creram.
No original
A expressão “feitos por mãos” traduz uma só palavra grega, cheiropoíētos. Era um termo usado para falar de obras humanas em contraste com o que vem de Deus. Estêvão usa a mesma palavra em Atos 7:48, e o próximo artigo desta série fala dele.
Já o “servido” do versículo 25 traduz therapeúetai, de therapeúō, verbo que podia indicar o cuidado ou serviço prestado a alguém, inclusive o culto às divindades. Paulo diz que Deus não é cuidado por mãos humanas como se lhe faltasse algo.
O que isso significa hoje
Este texto não é um ataque a quem se reúne em templos. Paulo mesmo entrava em sinagogas para conversar e ensinar. O alvo do texto é outra coisa: a ideia de que Deus mora preso a um lugar, ou de que ele precisa de algo nosso para nos dar atenção.
Essa ideia ainda aparece hoje, às vezes com outras roupas. “Se você fizer isso, Deus vai fazer aquilo.” “Se você der tal coisa, vai receber tal bênção.” Atos 17 desmonta essa troca pela raiz. Deus não está esperando pagamento. Ele já está dando: a vida, a respiração, o dia de hoje.
Isso muda a forma de orar. Em vez de chegar a Deus como quem negocia, podemos chegar como filhos que agradecem. A gratidão não compra nada de Deus; ela apenas reconhece o que ele já fez.
Agradecei em tudo, pois essa é a vontade de Deus em Cristo Jesus para vós mesmos.
Também muda a forma de enxergar a própria vida. Se nele vivemos, nos movemos e existimos, então Deus não está longe. Está mais perto do que o próximo fôlego.
Para refletir
Antes de pedir alguma coisa a Deus hoje, pelo que você pode agradecer?
Um passo para hoje: pare por um minuto, respire devagar três vezes e, a cada respiração, agradeça a Deus por uma coisa concreta que você recebeu sem ter pago por ela.
Imagem: São Paulo Pregando em Atenas, Raphael (1515). Domínio público, via Wikimedia Commons.