João 4:21-23 · Série “Igreja é gente”, 2 de 7
Nem neste monte, nem em Jerusalém: onde adorar a Deus
Uma mulher perguntou a Jesus qual era o lugar certo de adorar. Ele respondeu falando do Pai e de como ele quer ser adorado.
“Disse-lhe Jesus: Mulher, crê em mim, que a hora vem, quando nem neste monte, nem em Jerusalém, adorareis ao Pai. Vós adorais o que não sabeis; nós adoramos o que sabemos, porque a salvação vem dos judeus. Porém a hora vem, e agora é, quando os verdadeiros adoradores adorarão ao Pai em espírito e em verdade; porque também o Pai busca a tais que o adorem.”
Muita gente já se perguntou, com sinceridade, se está adorando a Deus “do jeito certo”. Às vezes a dúvida aparece depois de mudar de cidade, de se afastar de um grupo ou de ouvir alguém dizer que só em determinado lugar Deus escuta de verdade.
Essa pergunta é antiga. Quase dois mil anos atrás, uma mulher a fez a Jesus, junto a um poço, por volta do meio-dia. A resposta dele continua valendo para nós.
O contexto
Jesus atravessava a região de Samaria, a caminho da Galileia. Cansado da viagem, sentou-se junto à fonte de Jacó, perto da cidade de Sicar, por volta do meio-dia. Os discípulos tinham ido comprar comida. Uma mulher samaritana chegou para tirar água, e Jesus lhe pediu de beber.
Ela estranhou. Judeus e samaritanos não se davam: havia séculos de rivalidade entre os dois povos, e um dos pontos da briga era justamente o lugar de adoração. Os samaritanos adoravam no monte Gerizim, perto dali. Os judeus, no Templo de Jerusalém.
A conversa foi longe. Jesus falou de uma água viva que mata a sede para sempre e mostrou que conhecia a vida dela por inteiro, sem humilhá-la. Ela percebeu que estava diante de alguém diferente e trouxe a pergunta que dividia os dois povos:
Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar.
O que Jesus disse
A pergunta era onde. Jesus respondeu como.
Primeiro, ele anunciou que chegava uma hora em que nem aquele monte nem Jerusalém seriam o centro da adoração ao Pai. Repare na palavra que ele usa: Pai. Não “a divindade daquele lugar”, mas o Pai, alguém que se relaciona com seus filhos.
Jesus não fingiu que as duas tradições eram iguais. Ele disse com franqueza que os samaritanos adoravam o que não conheciam, e que a salvação vinha dos judeus. Mas não parou na discussão sobre quem tinha razão. Ele levou a conversa para outro nível: a hora já tinha chegado em que os verdadeiros adoradores adorariam o Pai em espírito e em verdade.
E acrescentou algo bonito: o Pai procura pessoas assim. Não é só o ser humano procurando o lugar certo para encontrar Deus. É o Pai procurando quem o adore de verdade.
Logo depois, a mulher falou do Messias que havia de vir. E Jesus respondeu de forma direta: “Eu sou o que contigo falo”. O centro da adoração não era mais um monte. Era uma pessoa.
No original
“Em espírito e em verdade”, no grego, é en pneúmati kai alētheía. Pneûma quer dizer espírito, sopro, vento; alḗtheia é verdade, o que é real, o que não está escondido.
Adorar “em espírito” é adorar de um jeito que corresponde a quem Deus é, pois logo depois Jesus diz: “Deus é Espírito” (João 4:24). Não depende de monte nem de gesto externo: nasce no interior da pessoa, e em João é o Espírito de Deus quem gera essa vida nova (João 3:5-6). Adorar “em verdade” é adorar o Deus real, como ele de fato se revelou. E no Evangelho de João a verdade tem rosto:
Jesus lhe disse: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim.
O que isso significa hoje
Jesus não disse que os lugares de reunião são errados. Ele mesmo ia ao Templo em Jerusalém, e seus seguidores continuaram a se reunir em vários lugares. O que ele mostrou é que nenhum lugar é condição para chegar ao Pai.
Isso é uma boa notícia para muita gente. Para quem está num hospital. Para quem mora longe de tudo. Para quem foi ferido num ambiente religioso e ainda não consegue voltar. O Pai não está trancado em lugar nenhum. Ele procura você onde você está.
Também é um convite sério. Se o lugar não é o que importa, sobra o que importa de fato: o coração sincero e a verdade que Jesus revelou. Ninguém pode adorar no seu lugar: nem um prédio, nem uma tradição, nem outra pessoa. A adoração começa dentro de cada um.
Veja como a história terminou. A mulher voltou à cidade contando o que tinha vivido, e os samaritanos foram até Jesus. Aqueles que discutiam qual era o monte certo acabaram encontrando a pessoa certa.
Vindo pois os samaritanos a ele, suplicaram-lhe que ficasse com eles; e ele ficou ali dois dias.
Jesus ficou com eles. Com o povo rival, numa cidade samaritana, longe do Templo. Ali houve adoração verdadeira.
Para refletir
Onde o Pai encontra você hoje? Pode ser na cozinha, no ônibus, no trabalho, na cama antes de dormir.
Um passo para hoje: escolha um momento do seu dia, do jeito que você está, e fale com o Pai com sinceridade. Sem fórmula e sem precisar ir a lugar nenhum. Diga a ele o que você sente e agradeça por ele procurar você.
Imagem: Cristo e a Mulher no Poço, Carl Bloch (s.d.). Domínio público, via Wikimedia Commons.