2 Pedro 2:1-3 · Série “Falsos profetas”, 6 de 7
Por ganância, fariam de vocês mercadoria
Perto do fim da vida, Pedro avisou as igrejas sobre falsos instrutores que lucrariam com a fé alheia. E deixou claro quem é o culpado.
“E também houve falsos profetas entre o povo, assim como também haverá falsos instrutores entre vós, que disfarçadamente introduzirão heresias de perdição, e negarão ao Senhor que os comprou, trazendo sobre eles mesmos repentina destruição. Muitos seguirão suas perdições, e por meio deles o caminho da verdade será insultado. E por ganância, eles vos farão de mercadoria com palavras falsamente inventadas; sobre os quais desde muito tempo não está a condenação sem efeito, e sua perdição não cochila.”
Existe uma dor que pouca gente comenta: a de perceber que a sua fé foi usada. Você confiou, se dedicou, deu tempo e dinheiro, e um dia notou que, para alguém, você era sobretudo uma fonte de renda.
Quem passa por isso costuma sentir duas coisas ao mesmo tempo: decepção com quem enganou e vergonha de ter acreditado. A primeira é compreensível. A segunda, como vamos ver, não precisa ficar com você.
O contexto
A segunda carta de Pedro foi escrita quando o apóstolo sabia que estava perto de morrer. Ele mesmo diz que quer despertar os irmãos “enquanto eu estiver neste tabernáculo”, isto é, enquanto ainda estiver no corpo, porque sabe que a partida está próxima (2 Pedro 1:13-14).
Pedro escreve como quem deixa uma herança. Quer que as igrejas se lembrem do essencial depois que ele partir. E entre as coisas que fez questão de deixar por escrito está um aviso: o mesmo problema que Israel conheceu, de falsos profetas no meio do povo, apareceria também entre os cristãos.
Não era desconfiança gratuita. Pedro tinha andado com Jesus, tinha ouvido o próprio Senhor avisar: “Permanecei atentos, para que ninguém vos engane” (Mateus 24:4). Agora, como pastor envelhecido, repassava o cuidado adiante.
O que o texto diz
Pedro descreve esses falsos instrutores em três traços.
Primeiro, eles agem disfarçadamente. Não chegam se apresentando como enganadores. Entram no meio da comunidade, falam a mesma língua, usam as mesmas palavras, e por dentro introduzem ensinos que levam para longe de Jesus. Pedro diz até que eles “negarão ao Senhor que os comprou”: usam o nome de Jesus enquanto negam, na prática, aquilo que ele é.
Segundo, a consequência alcança muita gente: “por meio deles o caminho da verdade será insultado”. Quando um líder explora pessoas em nome de Deus, quem está de fora olha e conclui que a fé inteira é golpe. O estrago não fica só em quem foi enganado.
Terceiro, e este é o centro do texto, o motor é a ganância. Eles fariam dos fiéis mercadoria, e a ferramenta seriam “palavras falsamente inventadas”. Promessas fabricadas, revelações sob medida, histórias montadas para produzir um efeito: que a pessoa dê.
Por fim, Pedro lembra que isso não passa despercebido por Deus: “sua perdição não cochila”. É um anúncio sobre o fim dos falsos instrutores, não uma ameaça a quem lê. Para quem foi lesado, é consolo: Deus vê.
No original
Duas expressões do grego ajudam a enxergar a imagem que Pedro usa.
“Vos farão de mercadoria” traduz emporeúsontai, do verbo emporeúomai, “comerciar, negociar”. É da família de émporos, o mercador, e de onde vem a nossa palavra “empório”. A imagem é a de alguém que olha para pessoas e vê estoque.
“Palavras falsamente inventadas” traduz plastoîs lógois. Plastós quer dizer “moldado, fabricado”, como se molda barro; é a raiz distante de “plástico”. São palavras feitas sob medida para vender.
E a “ganância” é pleonexía, literalmente “querer ter mais”, a vontade que nunca se satisfaz.
O contraste com o próprio Pedro é forte. No capítulo anterior, ele diz que os apóstolos não anunciaram Jesus “seguindo mitos criados pela inteligência humana, mas sim como testemunhas oculares” (2 Pedro 1:16). De um lado, testemunhas do que viram. Do outro, fabricantes de palavras para lucrar.
O que isso significa hoje
Se alguém usou a sua fé para lucrar com você, a culpa não é sua. Pedro não escreve contra os que foram enganados; escreve para protegê-los. Quem é chamado de responsável no texto é quem faz o comércio, não quem confiou. Confiar não é erro. É exatamente o que uma pessoa de fé deveria poder fazer com segurança.
O que Pedro esperava de quem cuida do povo de Deus está escrito na carta anterior:
Pastoreai o rebanho de Deus que está entre vós, não por obrigação, mas sim voluntariamente; não por ganância, mas sim com sincera prontidão; nem como que dominando os que estão aos vossos cuidados, mas sim como exemplos ao rebanho.
Note que a mesma lista separa bem as coisas. Pedro não condena quem serve nem quem contribui. Ele condena o serviço movido por ganância e a liderança que domina em vez de cuidar. Uma comunidade que recebe ofertas dadas com liberdade e alegria e as usa com transparência não é o que ele descreve. O que ele descreve é a pressão, a barganha e a palavra inventada para tirar algo de alguém.
E há uma boa notícia escondida no versículo 1: o Senhor “os comprou”. Antes de qualquer um tentar fazer de você mercadoria, Jesus já tinha pago o preço por você, e não para vendê-lo, mas para libertá-lo. Para Deus, você nunca foi mercadoria. Você é de quem o resgatou.
Para refletir
A palavra que você recebe sobre Deus tem feito você se sentir cuidado?
Hoje, faça só isto: observe, sem pressa e sem acusar ninguém, se a palavra que você recebe aponta para Jesus e para o seu bem, ou se quase sempre termina num pedido de dinheiro. Só observe. Ver com clareza já é um passo de cuidado consigo mesmo.
Imagem: São Pedro na Prisão, Rembrandt (1631). Domínio público, via Wikimedia Commons.