Mateus 10:8 · Série “Falsos profetas”, 5 de 7
Jesus nunca cobrou por um milagre
Ao enviar os doze, Jesus deixou uma regra simples: o que veio de graça não se vende. A graça de Deus não tem preço.
“Curai os doentes, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos, expulsai os demônios; recebestes de graça, dai de graça.”
Talvez você já tenha ouvido que a bênção vem depois da oferta. Que a cura depende de um valor, que a porta só se abre se você “semear” primeiro. E talvez, num momento difícil, você tenha dado o que não tinha, esperando que Deus finalmente olhasse para você.
Se isso aconteceu, respire. Você não fez nada de vergonhoso: você procurou Deus do jeito que lhe ensinaram. Este texto é para mostrar, com as palavras do próprio Jesus, que o amor de Deus nunca esteve à venda.
O contexto
O capítulo 10 de Mateus é o momento em que Jesus envia os doze discípulos pela primeira vez. Antes, ele os chama e lhes dá autoridade:
Jesus chamou a si os seus doze discípulos, e deu-lhes poder sobre os espíritos imundos, para os expulsarem, e curarem toda enfermidade e toda doença.
A missão era concreta e tinha endereço: as aldeias de Israel, “as ovelhas perdidas da casa de Israel”. Eles deviam anunciar que o Reino dos céus estava perto e cuidar das pessoas: dos doentes, dos leprosos que ninguém tocava, dos que estavam presos a espíritos imundos.
Logo em seguida vem uma lista curiosa do que não levar: nem ouro, nem prata, nem cobre nos cintos, nem bolsa, nem duas túnicas. Jesus mandou seus enviados saírem sem caixa, sem reserva e sem tabela de preços. E fechou com uma frase que equilibra tudo: “o trabalhador é digno de seu alimento” (Mateus 10:10).
O que Jesus disse
No meio dessas instruções está a regra que dá nome a este artigo: recebestes de graça, dai de graça.
Repare na lógica. Os discípulos não tinham comprado o poder de curar. Não tinham feito curso, não tinham pago taxa, não tinham merecido. Receberam porque Jesus quis dar. Por isso, não podiam transformar o que receberam em comércio. Cobrar por aquilo seria vender o que não era deles. A ordem de curar foi dada àqueles doze, naquela missão. O que passa para nós é o princípio: o que vem de Deus não se vende.
Isso não significa que quem serve deva passar fome. A mesma passagem diz que o trabalhador é digno de seu alimento: quem recebia os discípulos em casa e lhes dava comida fazia algo bom e justo. A diferença é clara. Uma coisa é sustentar com gratidão quem trabalha no Evangelho. Outra, muito diferente, é pôr preço numa cura, numa oração ou numa bênção.
O próprio Novo Testamento mostra o que acontece quando alguém tenta comprar o que vem de Deus. Em Samaria, um homem chamado Simão viu o Espírito Santo ser dado pela imposição das mãos e ofereceu dinheiro aos apóstolos para ter o mesmo poder. A resposta de Pedro foi firme:
Mas Pedro lhe disse: Teu dinheiro seja contigo para perdição, porque pensaste que o dom de Deus pudesse ser obtido por meio de dinheiro.
O problema não era o dinheiro em si. Era a ideia de que o dom de Deus entra numa negociação. E repare: Simão queria comprar poder para si. Quem deu uma oferta, num momento de aperto, esperando ser abençoado, não está no lugar dele. Essa pessoa foi levada a acreditar numa regra que não veio de Jesus.
No original
Em grego, a frase é curta e tem ritmo: dōreàn elábete, dōreàn dóte. A palavra dōreán vem de dōreá, “presente, dádiva”. Quer dizer “como presente”, “sem custo”, “gratuitamente”.
É a mesma palavra que Paulo usa quando fala da salvação: somos “justificados gratuitamente pela sua graça” (Romanos 3:24). Ou seja, o jeito como os discípulos deviam dar é o mesmo jeito como Deus nos deu: de presente. Quem cobra pela graça contradiz a própria natureza dela.
O que isso significa hoje
Se alguém vende cura, bênção, oração forte ou “unção especial”, isso não combina com o que Jesus mandou. Pode vir com versículos, com música bonita, com testemunhos emocionantes. Mas, quando a graça ganha preço, a regra de Mateus 10:8 foi trocada por outra.
O mesmo vale para a barganha disfarçada: “dê para receber”, “quanto maior a oferta, maior o milagre”. Essa conta coloca Deus no lugar de um comerciante e você no lugar de cliente. Jesus nunca falou assim. Ele curava quem chegava, sem perguntar quanto a pessoa tinha.
Isso não torna errado contribuir. Dar com alegria, por amor, para ajudar quem precisa ou sustentar um trabalho sério, é bonito e tem base no texto:
Cada qual faça como propõe em seu coração, não com tristeza, ou por obrigação; porque Deus ama ao que dá com alegria.
Repare nas palavras: “como propõe em seu coração”, “não com tristeza, ou por obrigação”. Oferta de verdade é livre. Não é ingresso, não é pagamento, não é chantagem. Se você tem dado com medo de perder a bênção, saiba que Deus não pede isso de você. A oferta de que Paulo fala nasce da liberdade, não do medo.
E se você já pagou por algo que deveria ter sido de graça, saiba: Deus não guardou a nota fiscal. O amor dele por você não aumentou com o que você deu, nem vai diminuir se você não puder dar nada. Você não precisa pagar para ser amado por Deus.
Para refletir
O que veio de graça, você ainda sente que precisa comprar?
Hoje, faça só isto: fale direto com Deus, em nome de Jesus, sem intermediário e sem valor combinado. Pode ser uma frase só, no caminho do trabalho ou antes de dormir. Isso não custa nada, e é exatamente assim que ele quer ser procurado.
Imagem: A Cura dos Leprosos em Cafarnaum, James Tissot (1886). Domínio público, via Wikimedia Commons.