Mateus 24:4-5 · Série “Falsos profetas”, 1 de 7
O primeiro aviso de Jesus foi contra o engano
Perguntado sobre os sinais do fim, Jesus não começou por guerras. Começou por um alerta contra o engano.
“E Jesus lhes respondeu: Permanecei atentos, para que ninguém vos engane. Porque muitos virão em meu nome, dizendo: “Eu sou o Cristo”, e enganarão a muitos.”
Talvez você já tenha ouvido alguém falar com muita segurança em nome de Jesus e, mesmo assim, sentido um desconforto que não sabia explicar. A pessoa citava a Bíblia, usava as palavras certas, falava alto e com autoridade. Mas alguma coisa não combinava com o Jesus que você conhece dos Evangelhos.
Esse desconforto não é falta de fé. Jesus mesmo avisou que isso aconteceria. E o lugar onde ele deu esse aviso diz muito sobre a importância que ele dava ao assunto.
O contexto
Jesus tinha acabado de sair do templo de Jerusalém. Os discípulos, admirados, mostraram a ele os edifícios do complexo. A resposta foi inesperada: daquilo tudo não ficaria pedra sobre pedra.
Mais tarde, sentado no Monte das Oliveiras, de onde se avistava o templo, os discípulos chegaram perto dele em particular e fizeram a pergunta que qualquer um faria. Quando seriam essas coisas? Qual seria o sinal da vinda dele e do fim da era?
Era a hora perfeita para falar de catástrofes. E Jesus falaria delas logo em seguida: guerras, fomes, terremotos. Mas não foi assim que ele começou.
O que Jesus disse
A primeira palavra da resposta foi um pedido de atenção: “Permanecei atentos, para que ninguém vos engane.” Antes de qualquer sinal no céu ou na terra, Jesus se preocupou com outra coisa: que os seus não fossem enganados.
E ele disse de onde viria o engano. Não de quem atacasse a fé abertamente, mas de quem chegasse em nome dele. O perigo não estaria do lado de fora, com cara de inimigo. Estaria do lado de dentro, usando o vocabulário certo e o nome certo.
Jesus ainda acrescentou que esse engano alcançaria “a muitos”. Não falou de gente ingênua ou descuidada. Falou de muitos. Ou seja, quem é enganado por alguém que usa o nome de Jesus não é menos inteligente nem tem menos fé. É alguém que confiou, e confiar não é pecado.
No mesmo discurso, Jesus voltou ao assunto duas vezes. Disse que muitos falsos profetas se levantariam, e depois explicou por que estava avisando com tanta insistência:
Eis que eu tenho vos dito com antecedência.
Ele não queria assustar ninguém. Queria preparar. Quem é avisado antes não precisa viver com medo; pode viver com atenção.
No original
O verbo traduzido por “enganar” é, no grego, planáō. O sentido básico é fazer alguém se desviar do caminho, levar a pessoa a vagar sem rumo. É a mesma raiz da palavra que deu “planeta”, porque os antigos viam os planetas como estrelas que “vagavam” no céu.
Isso muda a forma de ler o aviso. O engano de que Jesus fala raramente é uma ruptura brusca. É um desvio aos poucos: um passo para o lado, depois outro, até que a pessoa está longe do caminho sem ter percebido quando saiu dele. Por isso a resposta não é desconfiar de tudo, e sim permanecer atento ao caminho.
O que isso significa hoje
Usar o nome de Jesus não prova nada. Qualquer um pode dizer “em nome de Jesus” no começo ou no fim de uma frase. O que mostra quem é dele é outra coisa: viver o que ele ensinou.
Isso tira um peso de cima de quem foi ferido em ambiente religioso. Se alguém usou o nome de Jesus para manipular, cobrar, controlar ou humilhar você, a culpa não foi do nome, nem sua. Foi de quem usou o nome sem viver a mensagem. Jesus avisou que isso aconteceria justamente para que você não confundisse uma coisa com a outra.
E há uma boa notícia escondida nesse aviso: você não depende de nenhum intermediário humano para chegar a Deus. O Novo Testamento é claro sobre isso:
Pois há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os seres humanos: o humano Cristo Jesus.
Você pode falar com Deus direto, em nome de Jesus. Pode ler as palavras dele por conta própria. E pode reconhecer a voz dele, como ele mesmo disse:
Minhas ovelhas ouvem minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem.
Quem conhece a voz do pastor percebe quando outra voz tenta imitá-la. Esse é o fio desta série: nos próximos textos, Jesus vai dar critérios concretos para essa percepção, começando pela imagem dos lobos com roupa de ovelha.
Nada disso é convite para desprezar quem frequenta uma igreja ou para viver desconfiando de todos. Há muita gente sincera servindo a Deus com o coração limpo. O aviso de Jesus não serve para acusar pessoas, mas para proteger quem ele ama.
Para refletir
Pergunta: o que você tem ouvido sobre Deus combina com o que Jesus ensinou nos Evangelhos?
Um passo para hoje: escolha uma frase que você ouviu recentemente “em nome de Jesus” e compare com as palavras do próprio Jesus. Comece lendo, com calma, o Sermão da Montanha, em Mateus 5 a 7. Não para julgar ninguém, mas para conhecer melhor a voz do pastor.
Imagem: A Profecia da Destruição do Templo, James Tissot (1886). Domínio público, via Wikimedia Commons.