Mateus 7:21-23 · Série “Falsos profetas”, 3 de 7
Milagre não prova que alguém é de Deus
Jesus descreveu gente que fez maravilhas em nome dele. Mesmo assim, o critério que ele deu foi fazer a vontade do Pai.
“Não é qualquer um que me diz: “Senhor, Senhor” que entrará no Reino dos céus; mas sim aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: “Senhor, Senhor! Não profetizamos em teu nome? E em teu nome não expulsamos os demônios? E em teu nome não fizemos muitas maravilhas?” Então claramente lhes direi: “Nunca vos conheci. Afastai-vos de mim, transgressores!””
É difícil não se impressionar com o extraordinário. Um culto cheio de emoção, uma profecia que acerta em cheio, alguém que fala de curas e livramentos com convicção. A reação natural é pensar: se acontece tudo isso, Deus só pode estar ali.
Jesus conhecia essa reação. E, no fim do seu ensino mais conhecido, disse algo que surpreende até hoje: poder, por si só, não prova que alguém pertence a ele.
O contexto
Estamos ainda no Sermão da Montanha, logo depois do trecho sobre os lobos com roupa de ovelha, que vimos no texto anterior desta série. Jesus tinha acabado de dar o critério dos frutos. Agora ele aprofunda: e se o “fruto” que alguém apresenta for um milagre?
A cena que Jesus descreve se passa “naquele dia”, quando cada pessoa estará diante dele. Um grupo se aproxima e apresenta o próprio currículo. Diz que profetizou em nome dele, expulsou demônios em nome dele, fez muitas maravilhas em nome dele. Três vezes repetem “em teu nome”.
Logo depois deste trecho, Jesus encerra o sermão com a parábola das duas casas, uma sobre a rocha e outra sobre a areia. O texto de hoje é a ponte para essa conclusão.
O que Jesus disse
Jesus começa separando duas coisas que costumamos juntar: dizer e fazer. Não entra no Reino quem apenas o chama de “Senhor, Senhor”, mas aquele que faz a vontade do Pai que está nos céus.
O detalhe é que Jesus não discute o que essas pessoas dizem ter feito. Ele não diz “vocês não profetizaram” nem “aqueles milagres eram falsos”. Ele simplesmente não aceita esses feitos como prova. A resposta é: “Nunca vos conheci.”
Isso não significa que Deus não age com poder. Os Evangelhos estão cheios de curas e sinais feitos por Jesus. O ponto é outro: o poder não é o sinal de identidade de quem é dele. No discurso que vimos no primeiro texto desta série, Jesus foi ainda mais direto:
pois se levantarão falsos cristos e falsos profetas; e farão tão grandes sinais e prodígios que, se fosse possível, enganariam até os escolhidos.
Se até sinais grandes podem acompanhar o engano, então o critério precisa ser outro. E Jesus diz qual é logo no versículo seguinte ao nosso trecho:
Portanto todo o que ouve estas minhas palavras e as pratica, eu o compararei ao homem prudente, que construiu sua casa sobre a rocha.
Ouvir e praticar. Não impressionar.
No original
Duas palavras gregas ajudam a entender a resposta de Jesus.
A primeira é o verbo de “Nunca vos conheci”, ginṓskō. Aqui, ele não indica apenas saber quem alguém é, mas conhecer por convivência, ter relação. Jesus sabia quem eram aquelas pessoas; o que ele nega é que houvesse entre eles uma relação verdadeira. Elas usavam o nome dele, mas não andavam com ele.
Se ao ler isso bateu um medo de ouvir essa frase um dia, respire. Jesus não contou essa cena para assustar quem o procura de coração. Contou para mostrar o que ele quer de verdade: não um currículo, mas uma relação. E essa relação é ele mesmo quem oferece.
A segunda está em “transgressores”, no fim do versículo 23. A expressão grega fala dos que praticam a anomía, literalmente a ausência de lei: viver sem levar em conta a vontade de Deus. É o oposto exato de “fazer a vontade do Pai”, que abre o trecho. Jesus começa e termina no mesmo ponto.
O que isso significa hoje
A pergunta “isso vem de Deus?” não se responde pelo tamanho do espetáculo. Responde-se olhando se ali se vive o que Jesus ensinou: o perdão, a misericórdia, a verdade, o cuidado com o pequeno. O apóstolo Paulo disse algo muito parecido:
E ainda que tivesse o dom de profecia, e soubesse todos os mistérios, e todo o conhecimento; e ainda que tivesse toda a fé, de tal maneira que movesse os montes de lugar, e não tivesse amor, nada seria.
Profecia, conhecimento, fé que move montes: sem amor, nada.
Isso também liberta. Talvez você tenha sido ferido por alguém que parecia muito “ungido”, que fazia coisas impressionantes, e por isso você achou que o problema só podia ser seu. Não era. Se alguém impressionante machucou você, a falha não foi da sua fé. Jesus avisou que poder sem a vontade do Pai não prova nada.
E o mesmo vale para nós. Ninguém precisa de um grande feito para agradar a Deus. A vontade do Pai cabe numa vida comum: tratar bem quem está perto, perdoar, ser honesto, ouvir as palavras de Jesus e colocá-las em prática.
Para refletir
Pergunta: qual ensinamento de Jesus você quer viver hoje, mesmo que ninguém veja?
Um passo para hoje: leia o Sermão da Montanha inteiro, em Mateus 5 a 7. Leva cerca de quinze minutos. Ao terminar, escolha uma única frase de Jesus e pratique-a até o fim do dia. É assim que se constrói sobre a rocha.
Imagem: O Sermão da Montanha, Carl Bloch (1877). Domínio público, via Wikimedia Commons.