Lucas 17:20-21 · Série “Igreja é gente”, 7 de 7
O Reino de Deus está entre vós
Perguntaram a Jesus quando o Reino viria. Ele respondeu que não era questão de sinal, lugar ou data: o Reino estava ali.
“E perguntado pelos fariseus sobre quando o Reino de Deus viria, respondeu-lhes, e disse: O Reino de Deus não vem com aparência visível. Nem dirão: Eis aqui, ou Eis ali, porque eis que o Reino de Deus está entre vós.”
Quase todo mundo já esperou por um sinal. Uma resposta clara, um acontecimento marcante, um lugar onde finalmente Deus se mostraria sem dúvida. Essa espera é humana e não tem nada de errado. Mas às vezes ela nos faz olhar tão longe que deixamos de ver o que está perto.
Foi o que aconteceu numa conversa curta entre Jesus e alguns fariseus. Eles queriam saber quando. Jesus mostrou onde. E a resposta dele fecha muito bem esta série sobre igreja ser gente.
O contexto
Lucas conta que Jesus estava a caminho de Jerusalém (Lucas 17:11). No caminho, alguns fariseus lhe perguntaram quando o Reino de Deus viria. A pergunta fazia sentido para eles: o povo esperava que Deus agisse de forma visível, restaurasse a nação e mostrasse seu governo diante de todos.
Eles esperavam sinais que pudessem observar: um lugar, uma data, um acontecimento que todos apontassem. Jesus respondeu de um jeito que desmontou a pergunta. Logo depois, voltando-se aos discípulos, ele repetiu o alerta com outras palavras:
E vos dirão: Eis que ele está aqui, ou Eis que ele está ali, não vades, nem sigais.
O que Jesus disse
A primeira parte da resposta é negativa: o Reino de Deus “não vem com aparência visível”. Não é algo que se marca no calendário nem que se encontra num endereço. Quem fica de olho num lugar ou num evento, esperando ver o Reino chegar como um desfile, está procurando do jeito errado.
Por isso Jesus acrescenta: ninguém vai poder dizer “eis aqui” ou “eis ali”. O Reino não pertence a um ponto do mapa. Não é propriedade de um monte, de uma cidade ou de um edifício.
A segunda parte é surpreendente: “eis que o Reino de Deus está entre vós”. Os fariseus perguntavam sobre o futuro, e Jesus falava do presente. O Rei estava ali, diante deles, conversando com eles. Em outra ocasião, depois de libertar um homem oprimido, ele disse algo parecido:
Mas se eu expulso aos demônios pelo dedo de Deus, portanto o Reino de Deus chegou a vós.
O Reino chegou com Jesus. Onde ele está, ali Deus está reinando, e isso não depende de um lugar marcado.
No original
Duas expressões gregas ajudam a ler a passagem.
“Aparência visível” traduz metà paratērḗseōs, literalmente “com observação”, no sentido de olhar atento, de quem fica vigiando sinais. O Reino não vem de um jeito que se possa acompanhar e cronometrar dessa forma.
“Entre vós” traduz entòs hymōn. A expressão pode ser entendida como “dentro de vós” ou como “no meio de vós”, “ao vosso alcance”. Como Jesus falava a fariseus que o questionavam, e estava fisicamente ali, a leitura “no meio de vós” combina bem com a cena: o Reino estava presente na pessoa de Jesus, no meio deles. As duas leituras concordam num ponto central: o Reino não está “aqui” ou “ali” num lugar, está ligado a Jesus e a quem o recebe.
O que isso significa hoje
A série “Igreja é gente” percorreu sete passagens, e todas apontaram na mesma direção. Jesus prometeu estar onde dois ou três se reúnem em seu nome:
Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali eu estou no meio deles.
Ele disse à mulher samaritana que a adoração não dependeria de um monte. Paulo, em Atenas, lembrou que Deus não habita em templos feitos por mãos, e Estêvão disse o mesmo. Jesus chamou pescadores para segui-lo, não para um lugar. Paulo chamou a comunidade de templo de Deus. E aqui, Jesus diz que o Reino não é “eis aqui” nem “eis ali”.
Isso não é um convite a desprezar a reunião dos irmãos. É um convite a colocar o centro no lugar certo. Paulo resume bem o que o Reino é:
porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas sim justiça, paz, e alegria no Espírito Santo.
Se você está numa comunidade, a pergunta não é o tamanho do prédio, e sim os frutos: há justiça, paz, cuidado com as pessoas, fidelidade ao que Jesus ensinou? Ao falar de quem ensina em nome de Deus, o próprio Jesus deu esse critério: “Vós os conhecereis pelos seus frutos” (Mateus 7:16). Onde esses frutos aparecem, há muito o que agradecer.
E se um lugar feriu você, isso não precisa afastar você de Jesus. A ferida é real e merece cuidado, mas o Reino nunca esteve preso àquele endereço. Ele continua perto, tão perto quanto Jesus estava daqueles que lhe faziam perguntas. O convite que abriu o caminho dos primeiros discípulos continua valendo: vinde após mim.
Para refletir
E se Jesus está mais perto do que você pensa?
Um passo concreto para hoje: leia Lucas 17 inteiro, com calma. Depois, olhe para a sua semana e anote um lugar onde você percebeu justiça, paz ou alegria de verdade, talvez numa conversa, numa ajuda recebida, num perdão. Ali havia um sinal do Reino, não porque fosse um lugar especial, mas porque havia gente vivendo o que Jesus ensinou.
Imagem: Os Fariseus Questionam Jesus, James Tissot (1886). Domínio público, via Wikimedia Commons.