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Espaço com Jesus
A Vocação de São Pedro e Santo André, de James Tissot

Mateus 4:19 · Série “Igreja é gente”, 5 de 7

Vinde após mim: o chamado que começa no caminho

Jesus encontrou dois pescadores no meio do trabalho e não os chamou para um lugar, mas para andar com ele.

· 5 min de leitura

“E disse-lhes: Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de gente.”

Mateus 4:19 · BLIVRE

Muita gente associa a fé a um endereço: o lugar aonde se vai, o horário em que se chega, o banco em que se senta. Isso tem seu valor, e encontrar irmãos é uma alegria. Mas às vezes a pessoa muda de cidade, se afasta de um grupo ou simplesmente se cansa, e fica a pergunta: “será que perdi o caminho?”.

O primeiro chamado que Jesus fez aos seus discípulos ajuda a responder. Ele não começou com um prédio nem com uma lista de exigências. Começou com uma frase curta, dita a dois homens que estavam trabalhando.

O contexto

Mateus conta que Jesus andava junto ao mar da Galileia. Não estava num lugar de culto, estava na beira da água, onde a vida comum acontecia. Ali viu dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e André, lançando a rede ao mar, “porque eram pescadores”, diz o texto.

Eram homens de trabalho braçal, que viviam do que o lago dava. Não tinham, que o texto diga, formação religiosa especial. Jesus se aproximou deles no meio da rotina e falou. A resposta veio logo:

Então eles logo deixaram as redes e o seguiram.

Mateus 4:20 · BLIVRE

Logo depois, a mesma cena se repete com outros dois irmãos, Tiago e João, que consertavam as redes num barco com o pai, Zebedeu. Eles também deixaram o barco e seguiram Jesus (Mateus 4:21-22). Quatro pescadores, chamados um logo depois do outro, na mesma beira de lago.

O que Jesus disse

O convite tem duas partes. A primeira é “vinde após mim”. Jesus não disse “vão para tal lugar” nem “entrem em tal grupo”. Disse: venham atrás de mim. O centro do chamado é uma pessoa, e o verbo é de movimento. Seguir é caminhar junto, ver como ele vive, ouvir o que ele ensina, aprender pelo convívio.

O evangelho de Marcos, ao contar a escolha dos doze, mostra qual era a primeira finalidade desse chamado:

E constituiu doze para que estivessem com ele, para enviá-los a pregar,

Marcos 3:14 · BLIVRE

Antes de qualquer tarefa, estar com ele. É uma relação antes de ser uma função.

A segunda parte é a promessa: “eu vos farei pescadores de gente”. Repare em quem faz: não são eles que se transformam sozinhos, é Jesus quem os forma ao longo do caminho. E repare no destino: o chamado termina em pessoas. Os pescadores continuariam lançando redes, agora não em busca de peixes, mas indo ao encontro de gente.

No original

A expressão grega por trás de “vinde após mim” é deûte opísō mou, literalmente “venham, atrás de mim”. É a linguagem de quem segue um mestre pela estrada, passo a passo, e não de quem se inscreve num lugar.

Já “pescadores de gente” traduz haliéis anthrṓpōn. A palavra ánthrōpos indica o ser humano, homem ou mulher, sem distinção. Por isso a tradução “de gente” é fiel: o alvo do chamado são as pessoas, todas elas.

O que isso significa hoje

Esta série tem lembrado uma verdade simples: a igreja, no sentido do Novo Testamento, é gente. Os primeiros seguidores de Jesus não foram chamados para um edifício; foram chamados para perto dele e, a partir dele, para perto dos outros. Quando se reuniam, era por causa dele.

Isso não diminui a reunião. Encontrar-se para orar, ler as Escrituras e cuidar uns dos outros é bom e tem base no texto. Quem frequenta uma comunidade e ali aprende a seguir Jesus está fazendo algo precioso. A questão é apenas de centro: o lugar serve ao caminho, e não o contrário. Reunir-se é bom, mas o centro é ele.

E para quem se afastou de algum lugar, por cansaço, por mudança ou por alguma ferida, o chamado de Mateus 4 traz um alívio. Pedro e André não foram encontrados num templo, e sim na beira do lago, de mãos ocupadas. Jesus continua chamando pessoas onde elas estão. O mesmo Jesus disse:

Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos farei descansar.

Mateus 11:28 · BLIVRE

O convite não expirou. Ele continua de pé, dirigido a você, no lugar em que você está hoje.

Vale lembrar também o fim da história de Pedro. Depois de tropeços sérios, inclusive negar que conhecia Jesus, ele ouviu de novo uma tarefa voltada para gente: “Alimenta minhas ovelhas” (João 21:17). O chamado a ser “pescador de gente” virou chamado a cuidar de gente. Quem segue Jesus acaba, cedo ou tarde, olhando para as pessoas ao redor com outros olhos.

Para refletir

Se seguir Jesus é caminhar com ele, como seria dar um passo nesse caminho hoje, sem esperar o lugar ou o momento ideal?

Um passo possível: leia com calma Mateus 4:18-22, de preferência em voz alta. Repare em onde Jesus estava, o que os pescadores estavam fazendo e como ele os chamou. Depois, pense em uma pessoa que você vai encontrar hoje na sua rotina e faça por ela um gesto simples de atenção. É assim que o chamado começa: perto dele e, por causa dele, perto de gente.

Temas:

Imagem: A Vocação de São Pedro e Santo André, James Tissot (1886). Domínio público, via Wikimedia Commons.

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